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Monday, May 2, 2011

Viaduto Blues

Viaduto na sombra. De uma janela ao lado, Eliza olhava carros inundando a pista em horas de pico. "São Cristóvão abandonou a todos nós," ela pensava.

"Vou ficar aqui, olhando o viaduto passar, até amanha de manhã. Até que esse cinza encoberto pela noite, às vezes revelado em sujeiras relampejadas pela luz dos carros; até que esse horizonte cortado, travado em janelas cobertas de fuligem; até que a visão aqui em frente se expanda uma outra vez, a luz de um dia que não seja cinza retorne num colorido de prédios amanhecendo, sem o barulho nem a fuligem dos carros.

Eu vou ficar aqui, repito, ouvindo um cantar de cigarras nos paus, impossíveis flores de outono, quantas quedas. Vou ficar enquanto posso olhar dessa janela; esperando Juscelino e sua guitarra, esperando seu sorriso branco de tantos dentes enfileirados, sua voz mostrando-se às vezes enquanto me fala dos tangos que ouviu tocar, dos bares escuros nos quais se apresentou; falando, sem um som, das mulheres que lhe deram pouso e companhia.

Aqui estou, São Cristóvão, abandonada. Cinza como a visão que tenho diante de mim. esperando torcendo por um dia de cores abertas, outras profundidades, sons de outra festa.

Querendo não esperar nunca mais. Nem por silêncio de carros, nem por Juscelino chegando."

Saturday, April 9, 2011

E não havia ninguem para traduzir

Entre o quintal e a rua o que havia eram terras do reyno. Se eu soubesse que atravessar a praça me custaria tantos anos, teria deixado aquele lugar mais cedo. Juntava-me a alguma tropa, caixeiros viajantes quase nunca faltavam. O que eu não sabia era falar. Mas tinha braço forte e muito fôlego.

Bobeei, seu môço, bobeei. Nesse tempo todo eu pensei que cruzar a praça tivesse fundamento de razão. Tinha não. O senhor me entenda, por favor, eu era mais era um menino sonhando de se tornar homem.

Tuesday, June 22, 2010

Séculos atrás, ainda havia esperança

Sem saber, mergulhava no asfalto sem horizontes. Esperando a textura do chão, as ranhuras das camadas de tinta, silenciosamente. Anos depois havia perdido o sono, e o caminho. Mais ainda, perdera até a vontade de voltar.

Em silêncio, evitava lembrar o que vira, as casas no caminho, a estrada cortando em dois uma terra seca. A dureza do chão batido, seco até de lágrimas, não se recompunha mais em amanheceres gelados.

Dos quartos de beira de estrada e cafés nas xícaras, ele guardava uma lembrança amortecida, que há muito tempo deixara já de ser saudade.

Tuesday, June 15, 2010

De palmeira em palmeira

 
Em algumas manhãs Emereciano chegava cedo na praça do Carmelo, olhando de longe horizontes cortados pela linha dos montes da serra do mar. Sem minas, sem sal, sem a precisão de voltar, ficava ali até o sol chegar alto, olhando barcos de pesca retornando e turistas recém-despertos perambulando pela beira do cais. E esperava que as portas do outro lado da praça se abrissem, e o cheiro de peixe fritando lhe convocasse para uma outra procissão. 

Monday, June 14, 2010

Silêncios

Quando Emereciano chegou ali pela primeira vez, era noite de frio. O lugar não tinha mais de seiscentos moradores mas a proximidade do porto garantia algum movimento. Descer a serra era empreitada de muitos dias, molhados em águas torrenciais nos meses de chuva. Mata quase virgem onde abundavam jequitibás, guapuruvas, num mundo de troncos e cipós. O cheiro das orquídeas impressionando tropeiros, e o rugido de onças em noites de lua.

Nas curvas do caminho, clareiras abertas aqui e ali na picada descendo, os olhos se enchiam na visão do mar. Águas que curavam, diziam uns, as muitas ondas.

Trazendo carga das minas, Emereciano voltava levando sal. Fez isso por muito tempo, descendo em noites de lua. Durante os anos, enquanto esperava, se acomodava no largo da igreja do Rosário em silêncio. Fumando.

Sunday, June 13, 2010

"Foi por amar que ela se amasiou com a tal solidão do lugar..."

Os anos de homilías, as preçes, deixavam marcas nas pessoas e nas coisas.
Depois que o café foi embora, enquanto os morros da região podiam enfim reclamar outra vez o que lhes havia sempre pertencido, fechando caminhos, cercando a cidade alimentada por fantasmas de escravos e de viajantes de tropas, os que ficaram se refletiam em sermões. Recitando hinos, repetindo sacramentos, tocando em solo santificado como uma ponte para a salvação, agarravam-se a poderes que não podiam ver.
E ali, por tanto tempo, ela esperou.

Thursday, June 3, 2010

Strawberries plantation


Depois da guerra, eu sonho com um campo de morangos. Vou fazer no asfalto mesmo minha horta, e um dia, amanhecendo, verrei morangos crescendo vermelhos cor de sangue em frente à minha janela.

Se eu não trouxesse minha própria terra, em quantos anos esse asfalto viraria um jardim?

Thursday, May 27, 2010

De um outro patio

Marianna tinha perdido as chaves de casa.Olhava do alto dos viadutos carros e pessoas la embaixo. Ouvia suas respiracoes, suas saudades. Sem asas, pensava algumas vezes se doeria cair, largando-se dali concreto abaixo, pela janela sem vidro.

Em tardes de sol e nuvens era mais facil persistir. Resistir. E revoar com os olhos, acompanhando pássaros impossíveis, pardais açodados, potes de plantas vazios nas janelas dos vizinho.

Lembrou de impossíveis amoreiras, do cajueiro em frente à casa, de amêndoas nas calçadas. De um céu azul sem nuvens. Daquele calor.

Friday, March 26, 2010

ladeiras

era junho: capuzes, neblina, silencios, inverno. Apenas mulas de sal parando antes de marchas de muitas léguas de volta ao mar. Levando impossíveis pedras ate o porto do reyno.

Se eu tivesse olhos, repisava todas aquelas pedras.

Sunday, March 21, 2010

do rés do chão


Ainda cheguei a ver antes da queda, no segundo imediato. E depois, enquanto acordava lento. Meio-dia de sol e o cheiro de terra mijada, curral de gado, açoiteras penduradas nos alpendres. Aqui o gosto de barro seco na boca, o mundo transformado em ervas ressecadas: pleno agosto. A bicicleta retorcida, o corpo dolorido. De longe, o verde daqueles campos turvava. Entre silêncios de chocalhos, meu avô nem me ouviu morrer.

Wednesday, March 10, 2010

Rained in

Early March
[Eu me forçava a olhar aqueles rolos de feno molhados estragados depois de tanta chuva ressecando esquecidos sob um céu azul e calmo. O cheiro do capim se espalhando lento flutuando todo nevoeiro de abril sobre as coisas, sobre a cerca onde eu me apoiava agora, sobre o barro enlameado me cobrindo os sapatos, sobre a bicicleta cedendo lentamente ao abraço molhado do chão vermelho repicado de amarelo queimado em tanto capim.

Ele sentava do outro lado daqueles rolos, eu sabia, dia após dia, tardes inteiras contando nuvens e imaginando Iolanda ali no descampado. Imaginando outras notas que iria tocar e os dedos, os labios, os fios de Iolanda sem "y" despachada deitada dormindo leve naquele verão que perdeu de vista mas que insistia em trazer consigo, preso na argola de latao balançando na corrente que colheira insuspeito quando ainda eram jovens, Iolanda dormindo mas na verdade apenas fingindo não estar ali, ensaiando uma saida definitiva que enfim iria acontecer, deixando ele, o céu, o latão, aqueles rolos renovados a cada ano, a bicicleta enlameada, e meus sapatos. Olhando da cerca. Tanto céu. Azul.]

Wednesday, January 6, 2010

Cold outside


["You can sleep while I drive," she said. But that was long before the rain, ages before the streets of buenos aires engulfing our last dollar bills, before the tenor falling from stage at Corrientes, el olor del café y tantas medialunas slowly swallowing her back to the city, a rediscovery of your earlier - and only? - roots, a call desde las calles de San Telmo, and the Rio de la Plata slowly widening between us, then Colonia del Sacramento and all the Uruguayan ranchos, and later the vastitude of Brazil before more water, oceans, and our lost voices.
I slept, baby. I did. And you drove smoothly, nicely. A couple of times I remember vaguely to hear you sing. As you drove. Quietly you sung, I want to believe, all night long..]

"Você pode dormir enquanto eu dirijo," ela disse. Mas isso foi muito antes da chuva, séculos antes das ruas de buenos aires reclamando nossos últimos dólares, antes do tenor cair do palco em Corrientes, el olor delcafé y tantas medialunas lentamente lhe reclamando de volta à cidade, uma redescoberta de suas raízes primeiras - e únicas? - um chamado desde as ruas de San Telmo, e o Rio de la Plata lentamente se alargando entre nós, então Colonia del Sacramento e todos os pampas Uruguaios, depois as vastidões do Brasil antes de mais água, oceanos, e nossas vozes perdidas. 
Eu dormi, baby. Dormi. E você dirigiu suavemente, sem sobresaltos. Em duas ocasiões eu lembro vagamente de te ouvir cantar. Enquanto dirigias. Você cantou calmamente, quero crer, a noite toda..

Friday, December 11, 2009

Garden in the rain



[Uma estória de camafeus, gato no parapeito da janela, chás e camaleões impossíveis pelo quintal coberto de um capim espesso.

Emily de cabelo preso, quase cega, que conhecera Capote, conheceu o menino que um dia partira para uma cidade perdida entre charcos e cigarras na Louisiana - não muito longe, ela disse, de Lafayette.

Que viu o marido morrer sobre a cama, paralitico até a fala depois de um tiro de revólver pelas costas num bar de Oil City. Que comprara ações da empresa de petróleo quando a primeira tubulação trouxe gás do campo de Caddo até Shreveport. Que perdera a plantação da família e os descendentes de uma centena de escravos, e fora a primeira na cidade a deixar negros beberem nos copos da casa.

Emily que muitos anos depois de 1964, mudou-se para Morgan City, e viveu até o final numa casa em John Street, saía para recolher o leite, o cabelo de um branco de nuvem preso num coque e um camafeu no pescoço, seguro por uma fita de renda.]


[A story of cameos, cat on windowsills, tea and impossible chameleons across a backyard covered with thick leaves.

Emily with her hair on a bun, almost blind, who met Capote, knew of a boy who one day left to a city lost between marshes and cicadas in Louisiana - not too far from Lafayette, she told me once.

She saw her husband dying on a bed, crippled up to his speech after a gunshot on the back, in a bar at Oil City. Who bought stocks from the oil company when the first pipeline bringing gas from Caddo field to Shreveport begun to operate. Who lost her family plantation and the descendants of one hundred slaves, and was the first woman in the city to allow negroes to drink in the house glasses.

Emily who, many years later, moved to Morgan City and lived the rest of her life in a house on John Street, went out every day to collect the milk, her hair white tied in a bun, wearing a cameo held by a lace tape around her neck]

Monday, November 30, 2009

A porta de Janaína, seu bisavô, e Pero Vaz



[Onde vai dar? De onde traz? "Um milharal apertado no quintal da casa," ele disse. O terreno onde Janaína viu tantas vezes, descampado, o cachorro Pero Vaz dançando no terreiro, desenterrando tatu, comendo as pitangas que caíam em Abril. O muro ainda baixo dava a cara para o largo onde as mulas desacansavam.

O muro baixo construído por um bisavô que comandou, na cidade, o destacamento de polícia, caçou escravos fujões, transportou carne seca e sal até Minas Gerais, traficou diamantes, e colocou a pedra primeira da matriz do largo novo, cuja porta da frente podia ver da janela da sua sala. 

Pero Vaz Já se foi, a tempos. E também Janaína. Ficaram a porta fechada, as janelas olhando o capim crescendo, o muro recoberto por novas pedras, outras telhas, e escondendo do lado de cá, a visão do largo de paragen de arreiros, transformado em rua, calçada, retocada, como as frentes de igrejas matrizes devem ser.]

Sunday, November 29, 2009

Old city in Goiás


Na casa da minha avó a luz havia sido cortada por falta de pagamento. De esquina, a casa era situada num alto de onde podiamos ver as luzes da ribeira e as luzes dos autos pela carretera que levava a Sintra la embaixo. Naquela noite, uma agua clara escorria pela porta de entrada, recobrindo o assoalho, os móveis, os discos na vitrola e a foto de Caetano sobre a mesa da sala de jantar.

Minha avó de pernas finas terminava de descascar batatas sob uma luz impossível àquela hora da noite, cabelos pingando daquela água de roupas estendidas em varais pela casa. Numa cidade onde água desaparecia das torneiras depois da sete, aquele movimento febril dentro da casa contrastava com a quietude das pessoas na porta de entrada.  Meu primo Orlando sobre a cadeira olhava a rua que parecia não ver. José de barba aparada e bigodes cerrados segurava um candeeiro e dizia resignado que não sabia mais de onde puxar a luz. Não viria. Ficaríamos no escuro.

Seu Deodoro chegou num fusca antigo, abrindo a porta e entrando pela casa com a água quase a lhe dar nas canelas. E perguntou à minha avó de levava parte da roupa para secar em casa, onde havia luz. Ainda não havia dado oito horas.

Friday, November 27, 2009

The picture I saw - A vila da fundição



[Bats were nozing in the air. No calor daquele verão, o cheiro das frutas caídas, explodindo sob as árvores altas, um verde escuro: mangas, sapotis, graviolas. Besouros dançavam no ar. Um zumbido de moscas, continuamente perdidas em incontáveis teias de aranhas estendidas entre as folhas.

Dois carros de boi passaram, em fila, as rodas deixando sulcos fundos na terra molhada. Lá atrás, a fundição produzia sua dúzia diária de itens: pregos, estacas, postes para a ilumiação pública. A ferrovia chegava até ali perto, mas terminava do outro lado, atrás da fundição.]

Sunday, September 20, 2009

Door knob




- "Você ainda falará comigo? Vou ficar aqui, sentado nessa calcada, pleno sol de meio-dia, uma poeira no ar, nem sinal de chuva para esfriar, um carro perdido a séculos de casa, sem rouxinóis nem bem-te-vis, tudo uma solidão de pedra, bem sussuarana e jequié, muitos silêncios.  Não me deixe. Volte. Um dia, afinal, a chuva há de chegar  por aqui.."

Monday, July 30, 2007

Saharienne

Todos aqueles silencios eram falta de pratica. De enfase. De teimosia incontida, repetida, sob o sol, na calçada. A cada dia eu acordava mais tarde. Ela seguia, do outro lado da mouraria, do outro lado da cidade, antes do mar.  Aqui apenas uma saudade. E uma musica. E uma foto junto a uma fonte.

Tanto sol que rebrilhava até nos ladrilhos escurecidos pela fumaca dos carros. Tanto sol que o cheiro das coisas se multiplicava, invadindo os sentidos, saindo de esgotos, de cantos de jardim ressecados, do verde intenso das folhas.

Um cheiro de café chegava do vizinho em baixo. Almofadas pelo chão. Um dia talvez nos reencontramos, saharienne. Numa rua ou em meu sonho, você sorrindo debaixo daquele azul de mar em dia de sol.

Até lá me restam as janelas que trazem você em surpresas, do outro lado da rua. Do outro lado, você sabe, Saharienne, do mar.